ENTREVISTA: Carla Visi, a "mensageira da alegria e do axé da Bahia "

A cantante brasileira, Carla Visi
Foto: NOTIMÉRICA

MADRI, 15 Jul. (Notimérica/EP) -

   A cantora brasileira, Carla Visi, esteve de excursão esta última semana na Espanha com o seu show 'Pura Claridade', com o qual trouxe "um pouco da alegria e do axé da Bahia" ao país que a "cativou" muito.

   Visi realizou esta primeira viagem à Espanha patrocinada pela Secretaria de Turismo do estado brasileiro da Bahia (Bahiatursa), representada pela diretora de Relaçõs Internacionais da Bahiatursa, Rosana Decat França e o subsecretário de Turismo da Bahia, Benedito Braga; a companhia Air Europa; o IEBE e a Embaixada do Brasil.

   A intérprete, que sente-se uma "mensageira da alegria, mensageira da energia e do axé da Bahia", explicou em exclusiva a Notimérica como é cantar para os brasileiros que têm saudade do seu país.

   "Muitos brasileiros saem do Brasil não por opção, mas por necessidade e isso agrava muito a saudade. Alguns estão ilegais, outros estão trabalhando em subempregos, estão separados da família, mandando dinheiro ao Brasil, isso aumenta ainda mais a solidão, essa tristeza. Me sinto na missão de passar este afago", explica.

   Visi foi capaz de encantar aos assistentes brasileiros que sentiam falta do seu país, e aos espanhóis que desfrutaram de um pedacinho do Brasil em Madri.

   Com o apoio das empresas e instituições que patrocinavam o evento, Visi pôde trazer um pouco da música de qualidade à Espanha. Questionada sobre o mercado discográfico no Brasil, a cantora explicou que muitas pessoas não têm acesso à música de qualidade brasileira porque os meios não permitem e o próprio mercado não atua para que seja diferente.

   Segundo Visi, isto ocorre porque o meios não se propõem à divulgar os trabalhos dos artistas e as gravadoras não estão dispostas a investir dinheiro se não têm um retorno rápido do capital investido, como exemplo cita o seu próprio trabalho de excursão - 'Plura Claridade' -.

   Para Visi é um problema de "compartilhar a cultura" a um nível máximo para que as pessoas possam ter acesso à música de qualidade.

   A sua apresentação em Madri esteve dividida em duas partes protagonizadas por grandes nomes da Música Popular Brasileira (MPB). A primeira, falava da Bahia, na qual Visi interpretou Gilberto Gil e Dorival Caymmi. A segunda, esteve dedicada ao seu trabalho 'Pura Claridade', no qual Visi interpretou a cultura afro-brasileira cantada por Clara Nunes, quem dá título ao seu disco.

   "Clara Nunes é uma referência importantíssima. Muitoa não a conhecem, principalmente os jovens e adolescentes. A música dela está diluída no inconsciente coletivo", aponta a cantora.

   Visi explica que Clara Nunes foi uma das pessoas responsáveis de divulgar a cultura afro-brasileira e falar da religião do candomblé - - religião africana, levada pelos escravos negros ao Brasil - -, que era "marginalizada".

    "Ela [ Clara Nunes ] teve um papel importante para a identidade mestiça brasileira".

   O currículo de Carla Visi é extenso. Nos seus inícios passou por 'Companhia Clic' substituindo a cantora Daniela Mercury, depois foi ao 'Cheiro de amor' onde chegou a vender 2 milhões de cópias e hoje se dedica à sua carreira em solitário onde tem mais liberdade de criar e seguir outros estilos.

   A cantora baiana não perde o tempo e conta à Notimérica que já está estudando outros compositores com os quais trabalhar.

   "Estou investigando um [ cantor ] que partiu jovem, tinha certa ironia, mexia muito com o samba, era um pouco desleixado, desleixado no vestir-se. Falo de Gonzaguinha. Ele falava de um Brasil muito especial, era crítico, irônico e inteligente, malandro, moleque, alegre. Falava daquele povo que rala, que trabalha, mas quando é noite vai à uma batucada", diz animada com o seu possível futuro projeto.

A ALIENAÇÃO DO POVO BRASILEIRO

    Durante a sua apresentação, a cantora aproveitou para opinar que, ainda que não seja pró PT (Partido dos Trabalhadores, sigla da presidenta Dilma Rousseff), não está a favor de que as pessoas vaiem a presidenta ou danifiquem o patrimônio público para reivindicar.

   Aproveitando o momento em que se dá a sua apresentação em Madri, Visi explica que o resultado da Copa do Mundo de Futebol não lhe preocupa, que o "esperava" e aponta que sua principal preocupação não é o futebol.

   "O que me preocupa no Brasil é a desigualdade social, o que me preocupa é uma gestão responsável em todos os níveis. O que me preocupa é a participação do povo. É muito fácil criticar, fácil queimar a bandeira, destruir o bem público. O que quero ver são essas pessoas lá fora com propostas, discutindo o Brasil, exigindo dos políticos", afirma Visi.

   A intérprete deixa muito claro que não há que vender-se, não há que vender o voto, mas também não se deve destruir o patrimônio público para fazer-se ouvir porque tudo isto custa caro, é parte do "imposto que pagamos".

   Visi culpa da alienação do seu povo ao legado deixado pela ditadura, que roubou a educação dos brasileiros, tirando-lhes disciplinas como "filosofia e sociologia", como uma "manobra da alienação" ao que conclui que o Brasil é "um povo muito pobre e sem a prática de discutir".

   "Temos um déficit educacional que prejudica muito o nosso posicionamento político", aponta.

   Por outro lado, Visi tem certeza da beleza do seu país e vê seu potencial.

   "É um país de um potencial extraordinário. Lindo, lindo, lindo. De uma natureza abençoada e de um povo realmente gentil. Gentil até demais por aceitar os desmandos da corrupção, o coronelismo, o clientelismo e todas essas coisas que não podem fazer parte da nossa gestão democrática e jovem. Jovens sim, mas não burros, não idiotas", sublinha.

Contenido patrocinado