Foto: CASA DE AMÉRICA
MADRI, 12 Dez. (Notimérica) -
O festival de cinema Márgenes nasceu em 2012 na Espanha com o objetivo de levar ao público filmes espanhóis mais alternativos e arriscados que não chegam a estrear nos grandes cinemas comerciais. Dois anos depois, o festival passou por um crescimento importante e abrange também o cinema português e latino-americano, com sedes físicas também no México e em Montevidéu.
Para levar estas produções a um público mais amplo, o festival exibe os filmes em formato streaming até o próximo dia 31 de maneira gratuita na página oficial (http://www.margenes.org/). De forma paralela, acontece em Madri uma retrospectiva da obra dos portugueses Joaquim Pinto e Nuno Leonel. Pinto concedeu uma entrevista à Notimérica e nos contou sobre os desafios de fazer cinema neste momento de crise que atravessa Portugal e a recepção do seu filme 'E agora? Lembra-me' nos países onde foi apresentado.
No premiado documentário, Pinto conta a sua trajetória pessoal de luta contra a Aids em tratamentos experimentais na Espanha. Bastante pessoal e sincero, produzido de maneira independente e com mais de 2 horas e meia de duração, o filme superou as expectativas ao chegar a 35 países e arrecadar 27 prêmios.
"Não foi um filme feito com o objetivo de chegar a um público específico e não tínhamos uma ideia muito concreta do que ia acontecer Me surpreendeu muito a recepção no espaço ibero-americano e muitas vezes tivemos o 'feedback' das pessoas que viram o filme, o que não é muito comum. Pessoas dos lugares mais inesperados quiseram nos manifestar a maneira como o filme lhes tocou e isto é muito gratificante", afirma.
Os desafios de fazer um documentário chegar aos circuitos comerciais seguem existindo e, no caso deste filme, Pinto encontrou outro problema: a duração. "Eu percebi que as coisas estão mais formatadas. O fato de que o filme não tenha uma duração padrão de uma hora e meia é um obstáculo enorme para a exibição comercial. No festival de Hamburgo, encontrei amigos e todos me disseram: você está disposto a cortar uma hora do filme?".
Com a crise, Pinto assegura que inclusive os canais de televisão pública da Europa têm menos espaço porque buscam propaganda. "Hoje, há menos espaço de liberdade do que havia faz alguns anos". O diretor conta que a crise financeira e a intervenção da troika em Portugal praticamente paralisaram o setor cinematográfico.
"Sentiu-se não só no número de filmes produzidos, mas também entre os técnicos, porque muitos emigraram, inclusive para o Brasil e Angola. A ficção que se produzia na televisão também parou e muita gente perdeu o trabalho. Mas mesmo nesse momento houve alguns filmes que encontraram o seu espaço, como é o caso do nosso", explica.
LUTA CONTRA A AIDS
Quase vinte anos depois de descobrir que tinha o HIV, Pinto fez do filme uma bandeira na luta contra o vírus e acredita que a doença é um tema que está "esquecido". "Não tenho dúvidas de que segue existindo o preconceito e a discriminação. Em Portugal, houve casos de pessoas que foram demitidas pelo fato de serem soropositivas. Em muitos casos levaram o tema ao tribunal e os patrões ganharam. As pessoas têm medo. A maioria das pessoas, a não ser as que estão em uma situação privilegiada como eu, que não têm chefe, seguem ocultando a sua situação".
Pinto também exige melhores condições de sanidade pública, já que teve que ir à Espanha para realizar um tratamento experimental. "Em Portugal, isso teria sido impossível. Felizmente, o tratamento, até agora, funcionou e me sinto bastante melhor. Mas em Portugal há umas mil mortes por ano porque o sistema de saúde não quer apoiar o tratamento (com subvenções)", critica.
CINEMA BRASILEIRO
O diretor e técnico português também comenta a recepção do seu documentário no Brasil, onde ganhou o prêmio Olhar de Cinema do Festival Internacional de Curitiba, e lembra uma história divertida de Glauber Rocha, um dos nossos maiores diretores.
"Houve uma época em que ele viveu em Portugal e lembro que Wim Wenders estava gravando 'The State of Things' em Portugal e um dia apareceu uma pessoa nas gravações berrando que os imperialistas estavam ali. Algumas pessoas da produção tentaram afastar aquele 'louco' que estava gritando e eu percebi que era o Glauber Rocha. Tenho uma grande admiração pelo seu trabalho".